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Brinquedos e brincadeiras na educação infantil

A introdução de brinquedos e brincadeiras na educação infantil implica definir o que se pensa da criança. Quem é ela? Brinca? O brincar é importante?

A criança, mesmo pequena, sabe muitas coisas: toma decisões, escolhe o que quer fazer, interage com pessoas, expressa o que sabe fazer e mostra, em seus gestos, em um
olhar, uma palavra, como é capaz de compreender o mundo. Entre as coisas de que a criança gosta está o brincar, que é um dos seus direitos.

O brincar é uma ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança; dá prazer, não exige como condição um produto final; relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz a criança no mundo imaginário.

Todo o período da educação infantil é importante para a introdução das brincadeiras. Pela diversidade de formas de conceber o brincar, alguns tendem a focalizá-lo como característico dos processos imitativos da criança, dando maior destaque apenas ao período posterior aos dois anos de idade.

O período anterior é visto como preparatório para o aparecimento do lúdico.

No entanto, temos clareza de que a opção pelo brincar desde o início da educação infantil é o que garante a cidadania da criança e ações pedagógicas de maior qualidade..
Para a criança, o brincar é a atividade principal do dia-a-dia.

É importante porque dá a ela o poder de tomar decisões, expressar sentimentos e valores, conhecer a si, aos outros e o mundo, de repetir ações prazerosas, de partilhar, expressar sua individualidade e identidade por meio de diferentes linguagens, de usar o corpo, os sentidos, os movimentos, de solucionar problemas e criar.

Ao brincar, a criança experimenta o poder de explorar o mundo dos objetos, das pessoas, da natureza e da cultura, para compreendê-lo e expressá-lo por meio de variadas linguagens. Mas é no plano da imaginação que o brincar se destaca pela mobilização dos significados.

Enfim, sua importância se relaciona com a cultura da infância, que coloca a brincadeira como ferramenta para a criança se expressar, aprender e se desenvolver.

A pouca qualidade da educação infantil pode estar relacionada com a oposição que alguns estabelecem entre o brincar livre e o dirigido.

É preciso desconstruir essa visão equivocada para pensar na criança inteira, que, em sua subjetividade, aproveita a liberdade que tem para escolher um brinquedo para brincar e a mediação do adulto ou de outra criança, para aprender novas brincadeiras.

Importância do brincar para a criança de 0 a 5 anos e 11 meses

Crianças correndo Lousa Mágica

A criança não nasce sabendo brincar, ela precisa aprender, por meio das interações com outras crianças e com os adultos. Ela descobre, em contato com objetos e brinquedos, certas formas de uso desses materiais. Observando outras crianças e as intervenções da professora, ela aprende novas brincadeiras e suas regras.

Depois que aprende, pode reproduzir ou recriar novas brincadeiras. Assim, ela vai garantindo a circulação e preservação da cultura lúdica.

Para educar a criança na creche, é necessário integrar não apenas a educação ao cuidado, mas também a educação, o cuidado e a brincadeira. Essa tarefa depende do projeto curricular.

Não se pode planejar o currículo sem conhecer a criança. É bebê? Criança pequena? Pré-escolar? Como aprende e se desenvolve?

Cada uma é diferente da outra, vem de famílias e grupos étnicos diferentes. Cabe à creche e à pré-escola, espaços institucionais diferentes do lar, educar a criança de 0 a 5 anos e 11 meses com brinquedos de qualidade, substituindo-os, quando quebram ou já não despertam mais interesse.

Para adquirir brinquedos, é fundamental selecionar aqueles com o selo do INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia), que já foram testados em sua qualidade com critérios apropriados às crianças.

A seleção de brinquedos e brincadeiras na educação infantil envolve diversos aspectos:

Ser durável, atraente, adequado e apropriado a diversos usos; garantir a segurança e ampliar oportunidades para o brincar; atender à diversidade racial, não induzir a preconceitos de gênero, classe social e etnia; não estimular a violência;

Também incluir diversidade de materiais e tipos ― brinquedos tecnológicos, industrializados, artesanais e produzidos pelas crianças, professoras e pais.

Assim, é preciso considerar sobre brinquedos e brincadeiras na educação infantil:

TAMANHO: o brinquedo, em suas partes e no todo, precisa ser duas vezes maior e mais largo do que a mão fechada da criança (punho);

DURABILIDADE: o brinquedo não pode se quebrar com facilidade ― vidros e garrafas plásticas são os mais perigosos;

CORDAS E CORDÕES: esses dispositivos podem enroscar-se no pescoço da criança;

BORDAS CORTANTES OU PONTAS: brinquedos com essas características devem ser eliminados;

NÃO TÓXICOS: brinquedos com tintas ou materiais tóxicos devem ser eliminados, pois o bebê os coloca na boca.

NÃO INFLAMÁVEL: é preciso assegurar-se de que o brinquedo não pega fogo;

LAVÁVEL, FEITO COM MATERIAIS QUE PODEM SER LIMPOS: essa recomendação se aplica especialmente às bonecas e brinquedos estofados;

DIVERTIDO: é importante assegurar que o brinquedo seja atraente e interessante.

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A análise do brincar na educação infantil será efetuada à luz dos artigos 9º a 12º das Diretrizes Curriculares de Educação Infantil.

Segundo o artigo 9º, os eixos norteadores das práticas pedagógicas devem ser as interações e a brincadeira, indicando que não se pode pensar no brincar sem as interações:

Interação com a professora ― O brincar interativo com a professora é essencial para o conhecimento do mundo social e para dar maior riqueza, complexidade e qualidade às brincadeiras. Especialmente para bebês, são essenciais ações lúdicas que envolvam turnos de falar ou gesticular, esconder e achar objetos.

Interação com as crianças ― O brincar com outras crianças garante a produção, conservação e recriação do repertório lúdico infantil. Essa modalidade de cultura é
conhecida como cultura infantil ou cultura lúdica.

Interação com os brinquedos e materiais ― É essencial para o conhecimento do mundo dos objetos. A diversidade de formas, texturas, cores, tamanhos, espessuras,
cheiros e outras especificidades do objeto são importantes para a criança compreender esse mundo.

Interação entre criança e ambiente ― A organização do ambiente pode facilitar ou dificultar a realização das brincadeiras e das interações entre as crianças e adultos. O ambiente físico reflete as concepções que a instituição assume para educar a criança.

Interações (relações) entre a Instituição, a família e a criança ― A relação entre a instituição e a família possibilita o conhecimento e a inclusão, no projeto pedagógico, da cultura popular e dos brinquedos e brincadeiras que a criança conhece.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil, as práticas pedagógicas devem garantir experiências diversas.

I – Conhecimento de si e do mundo por meio das experiências sensoriais, expressivas e corporais para movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança

A construção de uma imagem positiva de si e do mundo inicia-se desde o ingresso do bebê na creche, com a atenção e o carinho da professora e os vínculos construídos entre os dois.

A percepção pelo bebê de sua própria imagem no espelho favorece o conhecimento de si e do mundo, porque a criança, ao ver sua imagem refletida no espelho, identifica a si mesma como distinta de outras crianças e dos objetos.

As brincadeiras, como formas de expressão, são também oportunidades para a manifestação da individualidade de cada criança, de sua identidade, porque cada uma tem uma singularidade que deve ser respeitada.

A criança utiliza os órgãos sensoriais para explorar e conhecer o mundo dos objetos. Quando coloca o brinquedo na boca, experimenta a sensação de duro, mole, o que amplia suas experiências sensoriais e a encaminha para a compreensão de conceitos.

Texturas, cores, odores, sabores, sons são experiências que a criança adquire no contato com móbiles coloridos, sonoros, saquinhos de ervas aromáticas e brinquedos de diferentes densidades e formas.

Objetos domésticos de uso cotidiano são importantes itens para ampliar as experiências sensoriais.

Objetos feitos com materiais naturais ou de metal, como bucha, escova de dente nova, pente de madeira ou de osso, argola de madeira ou de metal, chaveiro com chaves, bolas de tecido, madeira ou borracha, sino e outros, dentro de um grande cesto de vime com base plana e sem alças, servem para a exploração livre do bebê.

As experiências expressivas só são possíveis quando ele tem a oportunidade de escolher o que fazer, como fazer, com que brinquedo, com quem brincar, para mostrar seus saberes, utilizando as formas de expressão que conhece.

O primeiro brinquedo do bebê é o adulto, que conversa e interage com ele e o faz ver e descobrir o mundo. Entre as brincadeiras interativas que levam o bebê a se expressar é muito conhecida a de esconder e descobrir o rosto usando uma fralda e dizendo “cucu”, “escondeu”, “achou”.

Quando toma iniciativa e esconde um brinquedo, o bebê já domina a brincadeira e expressa seu domínio de forma prazerosa, repetindo sua nova experiência, variando as situações. Aqui se encontra um exemplo de como se aprende a dar significados aos movimentos, a compreender e usar regras e a linguagem.

Bebês em torno de seis meses utilizam as mãos para manipular objetos, ver o que se pode fazer com eles e encaixá-los. A criança, nessa fase, “pensa com as mãos”. Pinos de
encaixe coloridos, no formato de carrinho ou trem, chamam sua atenção, e os bebês querem saber o que se pode fazer com tais objetos.

Usar o corpo como instrumento de conhecimento é característico de bebês e crianças pequenas.

Eles gostam de entrar dentro de caixas, em buracos, túneis, passagens estreitas; apreciam empurrar, puxar, subir, encaixar, empilhar. Há brinquedos e materiais que auxiliam o conhecimento do mundo físico, entre os quais, as bolas, que são ótimas para apertar, conhecer a textura, cor, deixar cair para ver como rolam.

Há bolas com diferentes funções: há as que produzem som ao toque, as que têm uma face espelhada, permitindo à criança conhecer a si mesma, ou buracos, que o bebê pode explorar enfiando o braço e a mão. O mundo social aparece nas brincadeiras, que mostram não apenas como brincar de forma diferente, mas também como conhecer o outro.

A expressão dos movimentos pode ser feita por meio de brinquedos versáteis, como o carrinho grande, com corda para puxar.

Ele serve para a professora passear com o bebê que não anda, dar prazer ao que fica sentado tirando e colocando as peças que ficam em seu interior e para exercitar os movimentos da criança que começa a andar e gosta de puxar carrinho.

Outros brinquedos, usados à maneira de blocos de construção, podem ser empilhados por crianças menores e servir para os maiores construírem novos espaços para brincadeiras imaginárias.

Módulos de espuma resistente, revestidos de tecidos emborrachados, de fácil limpeza, servem para a criação de estruturas para exploração motora, com rampas para subir e descer e pontes para passar por baixo.

Acopladas a outros módulos com buracos e túneis, essas estruturas constituem experiências desafiadoras em que o movimento é a linguagem privilegiada.

A criança que engatinha usa o movimento para deslocar-se em direção aos objetos de seu interesse. É o movimento de seu corpo em ação que mostra o que ela já sabe fazer.

Desafios, como subir em almofadas, pegar um brinquedo colocado a certa distância ou vários materiais com as mãos, tocar as partes do corpo, brincar com as mãos, os pés, os dedos, são experiências interativas e motoras em que se aprende e se brinca pela repetição das ações.

Triciclos sem pedal ou carrinhos/caixas de empurrar e puxar fazem a criança que começa a andar usar amplos movimentos. Cavalinhos e balanços possibilitam balançar e cavalgar; cubos servem para empilhar.

Bancadas de brinquedos para martelar possibilitam a compreensão de que o pino penetra na bancada: é a descoberta da relação entre o martelar e o deslocar.

A criança pequena brinca no colchão, rola, dá cambalhotas, engatinha para percorrer um túnel, sobe no trepa-trepa.

O lençol e a colcha, quando puxados por um adulto, servem para balançar a criança ao ritmo de sons de transporte ou, quando cobrem uma mesa, servem de cabana para ela se esconder.

Crianças pequenas brincam com água, terra, areia; fazem experiências com tintas, alimentos, plantas e outros materiais, para explorar e ver o que acontece, movidas pela
curiosidade.

São numerosas e variadas as experiências expressivas, corporais e sensoriais proporcionadas às crianças pelo brincar. Não se podem planejar práticas pedagógicas sem
conhecer a criança. Cada uma é diferente, tem preferências conforme sua singularidade.

Em qualquer agrupamento infantil, as crianças avançam em ritmos diferentes. Dispor de um tempo mais longo, em ambientes com variedade de brinquedos, atende aos diferentes ritmos das crianças e respeita a diversidade de seus interesses.

II – Imersão nas diferentes linguagens e domínio de gêneros e formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical

Bebês brincando Lousa Mágica

Não se pode pensar que a criança utiliza apenas a linguagem verbal para se comunicar. A criança tem “cem linguagens”: o gesto, a palavra, o desenho, a pintura, as construções tridimensionais, a imitação e a música, todas são linguagens, que oferecem oportunidades para expressão lúdica.

Toda criança aprende a falar primeiro por gestos, olhares e, depois, usa a palavra para se comunicar. Nas brincadeiras, a criança relaciona os nomes dos objetos e situações do seu cotidiano e, pela imitação, a linguagem se desenvolve. A dança é também uma forma de expressão por gestos e comunica significados.

As primeiras imitações das crianças surgem apenas como repetição de ações que elas observam. Posteriormente, a imaginação ganha espaço e as crianças assumem personagens durante a brincadeira.

Bonecas e acessórios, como berço, carrinho, caminhões de diferentes tipos (cegonha, caçamba, bombeiro), posto de gasolina, fantoches, bichinhos e kit médico ampliam o repertório das brincadeiras. Em torno de 3 a 4 anos, a criança atinge o auge do desenvolvimento simbólico.

Nesse período, a criança utiliza “guias” ou roteiros que possibilitam desenvolver o tema da brincadeira.

Na brincadeira coletiva, em que se partilha o tema de ser o motorista, há um roteiro combinado pelas crianças: uma dirige o caminhão-cegonha que transporta vários carrinhos; outra, o caminhão-caçamba que transporta entulhos, e uma terceira, o carro de bombeiro.

Mesmo na categoria de motorista, cada uma tem um tipo diferente de trabalho, que auxilia a expressão da situação imaginária, e todas se encontram no posto de gasolina para colocar combustível.

A brincadeira de ser motorista, com várias personagens e um roteiro partilhado, enriquece a experiência dramática da criança. A linguagem verbal se amplia nas brincadeiras imaginárias, na companhia de outras crianças e, principalmente, com a participação da professora.

Brincar com tinta, fazer tintas com plantas, com terra e utilizá-las para expressar o prazer de misturar, de ver as cores e depois representar coisas de que gosta é outra modalidade de linguagem plástica que requer materiais apropriados.

Crianças gostam de fazer marcas para expressar sua individualidade, e as tintas são ferramentas para essa finalidade. Massinhas, argila, gesso ou materiais para desenhar, pintar, fazer colagens e construções com diferentes objetos são linguagens plásticas que dão prazer às crianças.

Brincar de bandinha rítmica apropriada a crianças pequenas possibilita experimentar diferentes instrumentos. O brincar de fazer som inclui o movimento do corpo. Um papel amassado ou o bater palmas expressam a sonoridade que se cria com as mãos.

Soprar uma pena ou bater na água mostra o poder de fazer coisas: a pena que voa e a água que espirra. O poder expressivo da brincadeira faz a criança compreender como ela cria tais situações ao agir sobre os objetos.

Assim, ela vai conhecendo o mundo, pela sua ação e pelos sentidos: o som de um jornal amassado, a textura macia de um bichinho de pelúcia, o cheiro de uma fruta, uma bolinha de sabão que voa longe ou se espatifa no chão.

Cantar e dançar, construir estruturas tridimensionais com madeiras, caixas de papelão, colchões, blocos são formas de expressão muito apreciadas pelas crianças à medida que caminha para o final da educação infantil.

A criança amplia sua capacidade de utilizar as diversas linguagens por meio de vários gêneros e formas de expressão: gráfica, gestual, verbal, plástica, dramática e musical.

III – Experiências de narrativas, de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita e convívio com diferentes suportes e gêneros textuais, orais e escritos

Com brinquedos e brincadeiras na educação infantil, as práticas pedagógicas devem possibilitar a expressão lúdica durante as narrativas, a apreciação e interação com a linguagem oral e escrita, para que a criança possa aproveitar a cultura popular de que já dispõe e adquirir novas experiências pelo contato com diferentes linguagens:

1. falada, que inclui a conversação diária, músicas cantadas, contar e ouvir histórias, brincar com jogos de regras, com jogos imitativos, ver e/ou ouvir TV, vídeos, filmes;

2. escrita, pelo uso de ambiente impresso ― livros, cartazes, letras, guias de programação de TV, revistas, jornais, embalagens de brinquedos e alimentos; 3. visual, que requer ver e criar desenhos, construções tridimensionais, ilustrações, animação, retrato e imagens móveis, TV, filmes;

4. combinação de linguagens visual/escrita/falada: com base em equipamentos que utilizam a tela como meio de expressão e possibilitam a interação entre máquina e espectador.

Como exemplo os computadores e a TV; o uso da Internet, de jogos eletrônicos e filmes possibilita a conjunção de diversas linguagens ― falada, escrita e visual; o uso das embalagens de brinquedos e alimentos, de livros, revistas e capas de CD privilegia as linguagens escrita e visual.

5. mediações críticas: um importante suporte para a ampliação das narrativas das crianças é a mediação crítica da professora durante a brincadeira, discutindo um programa de TV ou analisando a imagem de um livro.

Toda criança aprende a falar em casa, usando a linguagem de sua família.

A linguagem se amplia quando ela tem oportunidade de viver em meio a diferentes gêneros textuais: conversação diária, história, livro, desenho, pintura, TV, rádio, computador, música, dança, embalagens de alimentos. São diferentes formas de representar significados no mundo letrado.

Assim, a criança vai diferenciando a fala de sua mãe, seu bichinho de pelúcia, o som da televisão, o pacote de biscoito preferido, a dança da irmã mais velha, o seu nome bordado na toalha, e vai compreendendo o mundo ao seu redor.

As brincadeiras interativas com o corpo do bebê são oportunidades para compreender gestos, palavras e significados. Quando a professora brinca: “Onde está o nariz do Paulinho? Aqui!” E aponta para o nariz da criança, ela responde com um sorriso ou um gesto.

A criança está entrando no mundo letrado, em que gestos e palavras têm significado, são textos gestuais e orais. Quando “fala” usando o gesto e o desenho, a criança mostra outras linguagens que conhece e usa de forma concomitante.

Há diferentes gêneros de histórias que encantam as crianças. As histórias do mundo encantado dos contos de fadas, de reis, bruxas e super-heróis contêm expressões que marcam sua estrutura, como “Era uma vez”, “ Depois”, “E viveram felizes para sempre”.

O começo, o meio e o fim proporcionados por esse gênero de literatura auxiliam a criança a ampliar narrativas.

Ao agregar a natureza lúdica no recontar histórias, a livre expressão de experiências, vivências e formas de ver o mundo penetra nas narrativas infantis.

Nas histórias recriadas pelas crianças, a Branca de Neve vira Morena das Neves, trazendo as questões da diversidade; o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho desdobra-se no lobo do “ bem” e do “mal”.

O lobo bom vivia no zoológico, e o mau era o homem que mandava matar os animais, um fato ocorrido no zoológico de São Paulo ― a matança de animais.

Ao ouvir e recontar histórias, a criança experimenta o prazer de falar sobre o que viu na TV, o que conversou com o amigo ou com os pais, incluindo suas experiências e outras histórias que conhece.

Contribuem para as experiências narrativas livros de pano, de papelão, de plástico, com imagens para a criança “ler” sozinha, com um amigo ou com a professora e
seu agrupamento, em um espaço aconchegante da sala, com tapetes e almofadas para sentarse;

Também um baú com os tesouros, os livros, que as crianças podem levar para casa para que os pais continuem a experiência da leitura.

As crianças gostam de ouvir histórias e também de fazer comentários. Não gostam de ficar apenas ouvindo, caladas. Querem participar da história.

Vão se tornando leitoras, ouvindo, vendo, falando, gesticulando, lendo, desenhando sua história, construindo novas histórias.

Os brinquedos, na forma de monstros, animais, bruxas, princesas, super-heróis, personagens preferidos pelas crianças, podem desencadear um “mar de histórias”, em que se criam narrativas imaginativas com as experiências de cada uma.

Fantoches na forma de famílias, brancas e negras, animais domésticos ou do zoológico, personagens do folclore, como o saci, o curupira, são importantes recursos nas narrativas infantis.

O contato com diferentes formas de letras em cartazes, propagandas, embalagens, refrigerantes, revistas e jornais auxilia a entrada no mundo letrado.

Brincar de colecionar, comparar e fazer álbuns com letras, verificar se uma tem perna de um lado ou de outro, partes abertas e fechadas, diferenciar os números são brincadeiras interessantes que se podem fazer na sala.

Brincar de fotografar ou desenhar letreiros, placas de carros, sinais de trânsito, propagandas, visitar um supermercado e verificar sua sinalização e as marcas dos alimentos são interessantes “passeios” para iniciar a criança no mundo dos diferentes textos.

Desenhar, pintar, dançar, cantar e imitar a mãe que dá comida ao bebê são outras formas de letramento, textos que enriquecem as experiências das crianças. Nesse percurso, é importante que a criança seja agente, tenha iniciativa e oportunidade de falar, de se expressar e participar do mundo letrado.

IV – Experiências para recriar, em contextos significativos, relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço/temporais

A entrada no mundo da matemática ocorre quando a professora tem clareza de como encaminhar a criança para brincadeiras em que, movimentando-se no espaço, ela compreende as noções de tamanho ou quantidade.

Medindo a sala com um cabo de vassoura, com os braços abertos ou com as palmas da mão, fazendo marcas ou números, por exemplo.

A ação interativa da professora é fundamental nesse processo.

Contar os dias, ver quantas crianças vieram e quantas faltaram, anotar o calendário diário, se há sol, chuva ou nuvens, verificar as atividades ao longo do dia, classificar conjuntos de objetos com palavras como “nenhum”, “muito”, “pouco”, “bastante”.

Também fazer coleções de objetos são atividades que a professora pode desenvolver junto com as crianças.

Exemplos de brinquedos e brincadeiras na educação infantil que introduzem a criança, que já começa a fazer hipóteses de como medir e quantificar, no mundo da matemática.

  • a dança das cadeiras, de correspondência entre a criança e a cadeira (a cada criança que sai tira-se uma cadeira);
  • boliche (de tecido, macio para os menores, e mais duro, de plástico, para os maiores) ou argolas no poste para contar os acertos;
  • brincar de médico para medir as crianças;
  • apostar corrida para ver quem chega primeiro a um lugar marcado;
  • cantar, recitar parlendas,  travalínguas, em ritmos rápidos e lentos, marcar as batidas com as palmas e os pés, aumentar ou diminuir o tom de voz;
  • jogar bolas coloridas, cada cor em uma cesta;
  • brincar de pescar e anotar com marcas ou números os peixes pescados;
  • fazer compra em supermercado, pagando com “dinheiro” feito pelas crianças;

Jogos, como dominó, bingo, memória, quebra-cabeça, auxiliam o letramento matemático.

Blocos lógicos servem para classificação de cores, formas e espessuras, mas a criança pode dar a eles outros usos, como empilhar, juntar os blocos para criar formas de animais e objetos, ou fazer um bloco virar sabonete, pente ou comida na  brincadeira imaginária.

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V – Experiências para ampliar a confiança e a participação das crianças nas atividades individuais e coletivas

Toda brincadeira nova pode trazer um pouco de tensão. O desconhecimento de brincadeiras pode levar a criança a afastar-se do grupo. Ela precisa adquirir confiança para
brincar com as outras e, para começar, nada melhor do que iniciar com brincadeiras conhecidas por todas.

Brincadeiras da tradição, como pular corda, amarelinha, caça ao tesouro, jogo da memória, faz de conta ou boliche dão prazer quando feitos em grupo. Depois de integradas no grupo, as crianças se sentem mais seguras, e é possível ensinar novos jogos.

Algumas crianças gostam de brincar juntas; outras, sozinhas. É importante criar espaços para a criança brincar sozinha e em grupo. Há carros com dois lugares para os bebês serem puxados por um adulto, assim como triciclos, com assento regulável, que possibilitam à criança sentar-se sozinha, pedalar e até dar carona a um amigo.

Na atividade individual, é importante oferecer materiais e brinquedos interessantes, diferentes e suficientes  ara atender a todas as crianças, pois os interesses e gostos variam. Uma criança é diferente da outra na forma de falar, pensar, relacionar-se com os outros, preferir este e não aquele brinquedo.

Um agrupamento da mesma faixa etária pode ter interesses comuns específicos, mas a singularidade de cada criança precisa ser respeitada.

Para aprender novas formas de brincar, a criança precisa ter contato diário não só com outras crianças de seu agrupamento, mas também com as mais velhas, em espaços dentro e fora da instituição infantil.

Um bom exemplo de brincadeira individual é o cesto com objetos de uso cotidiano, que a criança pode explorar de forma concentrada, de acordo com seu ritmo, manipulando e explorando coisas que lhe interessam.

Nas atividades coletivas, é preciso prever não só a diversidade, mas também a quantidade de materiais e brinquedos para que todos possam participar. Nessas atividades, a
crianças têm oportunidade de ampliar contatos sociais.

O clima de confiança se estabelece quando se criam momentos em que as crianças ensinam as brincadeiras que conhecem para os novos coleguinhas.

VI – Experiências mediadas para a aprendizagem da autonomia, nas ações de cuidado pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar

Duas crianças brincando Lousa Mágica

O desenvolvimento da autonomia não se faz sem ações intencionais. A mediação do adulto durante a brincadeira é essencial para a autonomia e auto-organização da criança. Um ambiente bem organizado tem brinquedos em estantes baixas, em áreas separadas, com mobiliário adequado, em caixas etiquetadas para a criança saber onde guardar.

Esse hábito se adquire durante a brincadeira, em local tranquilo, com opções interessantes e o apoio constante e afetivo da professora. Em um ambiente onde predomina o choro, o medo e os adultos não atendem às necessidades e interesses das crianças, não há bem-estar, condição essencial para a qualidade da educação.

Com o apoio da professora, crianças de 2 anos exploram os objetos de forma autônoma, mas são orientadas a guardar, após o uso, nas sacolas com identificação, os objetos do mesmo tipo.

A professora faz a mediação, indicando as peças que estão espalhadas e onde devem guardar cada uma delas, até que as crianças adquiram o hábito da auto-organização.

A brincadeira integra os tempos do cuidado e da educação. Para isso é preciso prever uma área de cuidados (troca de fralda, banho, alimentação) separada, mas próxima da área do brincar. Enquanto uma criança toma banho, outra pode ficar brincando.

Na bacia ou banheira, é muito gostoso encher e esvaziar canecas. No banho e troca de fraldas, é importante evitar ações mecânicas e dar atenção a cada criança, brincando, movimentando seus braços, pernas, comentando cada gesto e dando oportunidade para a criança se expressar.

A brincadeira interativa pode surgir a qualquer momento: a professora olha ou fala com o bebê, que responde com um sorriso, um olhar ou balbucio. Quando o bebê inicia o turno interativo, temos o brincar.

Mesmo durante a alimentação, se o bebê derrubou a colher, brinque, dizendo: “Caiu a colher!” e observe se ele repete a ação para ver o que acontece. Se há repetição com prazer, a brincadeira integrou o cuidar e o educar.

Durante a alimentação, a criança pode imitar a ação da professora de dar de comer ao seu bichinho de estimação, limpar o rosto com o guardanapo, como vê fazer sua professora, além de explorar os cheiros, as cores e a consistência dos alimentos.

Durante a brincadeira podem surgir confrontos: um empurra o outro, quer tomar-lhe o brinquedo, o que obriga a professora a intervir para que a criança aprenda a  partilhar a brincadeira com o amiguinho e a controlar sentimentos de raiva quando não consegue o brinquedo.

A mediação da professora é essencial para que a criança aprenda a enfrentar conflitos durante a brincadeira.

Para aprender e desenvolver-se de forma saudável, toda criança precisa exercitar o corpo com movimentos amplos tanto dentro como fora da sala. Bebês, crianças de 2 a 3 anos e pré-escolares devem ter espaços (área interna e externa) separados, seguros e adequados às suas atividades lúdicas e necessidades pessoais.

Bebês devem ter acesso a um solário próximo à sua sala, com brinquedos, para brincadeiras interativas com as professoras.

Crianças que começam a andar devem ser separadas daquelas que correm. Crianças pequenas e pré-escolares devem ter acesso a um playground com grama, pedrinhas, cascalhos, arbustos onde possam se esconder, tanque de areia, água, árvores frondosas para fazer sombras e estruturas para subir, descer, escorregar.

Devem também ser previstas áreas para brincadeiras tranquilas, separadas daquelas em que circulam os carrinhos e triciclos. Os pré-escolares brincam juntos no playground com equipamentos adequados ao seu tamanho, com desafios motores, como morros, estruturas para escalar, pular, descer, girar, balançar.

Como são mais independentes, podem levar objetos da sala para a área externa para criar novas áreas de brincadeiras, lavar e guardar objetos. No caso dos centros infantis com crianças de 0 a 5 anos e 11 meses, por segurança, as menores devem ficar separadas dos préescolares.

Em um ambiente de bem-estar, o relaxamento e a tranquilidade favorecem a exploração, levam a criança a observar os que brincam, a escolher o que quer fazer, como quer fazer e com quem brincar. Assim, a criança aprende, sem medo, sem pressões e punições, a diferenciar o mundo das pessoas e dos objetos.

VII – Vivências éticas e estéticas com outras crianças e grupos culturais, para favorecer a identidade e a diversidade

A independência é um princípio ético que se aprende quando a educadora deixa a criança escolher objetos e brinquedos. Ao respeitar o espaço de brincar do outro, ao guardar os brinquedos que não está usando, ao emprestar o brinquedo e esperar sua vez de usá-lo, ela aprende a ter noções de responsabilidade e democracia.

Desenvolver o senso estético implica usar objetos a seu modo e da forma que aprendeu em casa.

Brincar com sucata e blocos desenvolve o senso estético e a criatividade porque a criança lhes dá o formato que quer, expressando sua forma de ver o mundo, como fez uma criança que observou o pai reformar o jardim de sua casa e, na creche, usou blocos de construção para fazer um jardim similar ao construído por seu pai.

No faz de conta, a criança utiliza a panela de barro ou alumínio para fazer comida, a rede, o berço ou o cesto para pôr a boneca para dormir.

Organiza o espaço da casinha com objetos, conforme vê fazer em casa; pinta e desenha com traços, cores e formas valorizados pela família, construindo brinquedos ou objetos de seu interesse; dança, canta, narra e participa de festas populares típicas da comunidade.

Brincando com crianças de outros países ou de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, do campo e afrodescendentes, as crianças aprendem suas brincadeiras típicas. Nas brincadeiras de faz de conta, pentear o cabelo diante do espelho no salão de beleza leva a criança a conhecer a cor de sua pele, o tipo de cabelo e a apreciar a estética de seu grupo cultural.

A mediação da professora, quando esta valoriza as características de cada uma, auxilia a construção da identidade da criança. Oferecer, nas áreas de faz de conta, bonecas negras, brancas e objetos de enfeite de cada agrupamento cultural possibilita vivenciar o modo de vida da criança e sua família.

Recomenda-se criar um ambiente em que meninos e meninas tenham acesso a todos os brinquedos sem distinção de sexo, classe social ou etnia. Ficar passivo diante dos
preconceitos é uma forma de reproduzi-los. É preciso desconstruir tais práticas, assumindo posturas claras para evitar sua permanência.

Organizar com os pais momentos para os contos e vivências de brincadeiras típicas da comunidade aumenta o repertório de brincadeiras de todas as crianças e propicia a aprendizagem do respeito às formas de vida dos vários grupos.

Exposições “turísticas” de crianças vestidas em roupas típicas ou acompanhadas de comidas regionais devem ser evitadas, pois pouco contribuem para a vivência ética e estética das crianças dos diversos grupos culturais.

A diversidade inclui a singularidade de cada criança. Não posso oferecer a mesma prática para todas: crianças diferem entre si, cada uma é diferente da outra, ainda que
apresentem algumas características comuns a seus grupos culturais.

Isso exige a observação de cada criança, não apenas ao ser admitida na creche, mas a qualquer momento, para ampliar, todos os dias, as oportunidades de educação.

Crianças com problemas físicos, que usam cadeiras de rodas, precisam de rampas para seu deslocamento; as cegas e com baixa visão, de pisos com texturas diferenciadas que lhes permitam se orientar e locomover com segurança.

Crianças com deficiências, dificuldades de aprendizagem ou as superdotadas requerem ambientes ricos para suas necessidades, mas não devem brincar separadas das outras.

Utilizar brincadeiras em que as outras crianças se colocam no lugar das crianças com deficiência é uma forma de compreender tais dificuldades: experimentar adivinhar, de olhos vendados, quais são os objetos retirados de dentro de uma caixa (cegas).

Também tirar o som da televisão e deixar que as crianças tentem compreender o que se passa (surdas); colocar meias grossas nas mãos para abotoar botões ou amarrar os sapatos (paralisia cerebral).

Mostrar quadros e cartões pintados por deficientes físicos com os pés e as mãos ajuda as outras crianças a perceber que os deficientes também têm saberes e que podem fazer cartões e quadros maravilhosos.

Crianças que têm pouco controle manual têm dificuldade de acionar o botão, com dedos em pinça, para brincar com brinquedos tecnológicos movidos a pilha.

Nesse caso, basta fazer uma pequena adaptação, com a ajuda de pais que entendam de eletricidade, substituindo o botão por uma superfície maior. Com apenas a batida da mão, garante-se a essas crianças igual oportunidade de brincar.

VIII – Curiosidade, exploração, encantamento, questionamento, indagação e conhecimento em relação ao mundo físico e social, ao tempo e à natureza

O brincar desperta a curiosidade das crianças pela exploração de objetos e brinquedos e as leva a ver o que se pode fazer com cada objeto: uma bola pode rolar, pular, mas pode também ser mordida para se experimentar a textura.

A criança se encanta quando descobre o botão que aciona o som da caixa de música e o aciona repetidas vezes pelo prazer de ouvir o som. Encanta-se quando vê reaparecer um objeto que enfiou na abertura de uma caixa.

Questiona a razão de a água não parar na peneira, o que a faz pensar na hipótese de “segurar” a água com a mão debaixo da peneira.

É assim que as crianças vão aprendendo ― experimentando e repetindo várias vezes, em contato com os objetos do mundo físico ― o que cada coisa faz e o que se pode fazer com cada coisa.

Brincando com objetos para produzir som, espelhos para ver a si mesma e aos outros, com carvão ou giz de cera para desenhar, com vela ou lanterna para fazer sombra ou luz, com água para produzir fontes, com a luz do sol e a sombra para fazer relógio de sol.

Também com plantas para fazer tintas, com tintas e terra misturadas para criar cores, as crianças entram em contato com o mundo físico.

Ampliam seu conhecimento quando utilizam elementos da natureza (flores, folhas, sementes) para colecionar e produzir outras coisas, quando observam o que se faz com água, areia, terra.

Vão compreendendo como o tempo passa quando comemoram aniversários, organizam o tempo diário de atividades, observam as estações do ano e as previsões climáticas.

Percebem o tempo passar quando veem como era a sala antes e depois da reforma ou quando observam uma planta que nasceu, cresceu, deu flores e frutos.

Brincar de recriar o antes e o depois no cotidiano é a oportunidade para compreender o significado do tempo. O mundo social surge quando a criança interage com outras pessoas para aprender e expressar suas brincadeiras. Pular amarelinha, rodar um pião, jogar peteca: primeiro se aprende e depois se brinca.

Jogos de tabuleiro e suas regras são criações da sociedade e trazem os valores do ganhar ou perder, comprar e vender. Na brincadeira do faz de conta, o mundo social aparece na sua temática: ser médico, professora, motorista.

Fazer cabana com folhas e galhos, brincar nos troncos das árvores são brincadeiras que expressam valores de comunidades rurais. O mundo tecnológico aparece representado em brinquedos como o celular, o fogão, a geladeira.

IX – Relacionamento e interação entre as crianças durante as manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura

A diversidade de experiências adquiridas nas manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura lúdicas tem o potencial de aproximar crianças.

Cada criança utiliza seu acervo de experiências, que serve como ferramenta para fazer amizades e brincar em conjunto. Para promover o relacionamento e a interação entre as crianças, cabe à instituição infantil oferecer experiências culturais diversificadas.

Nas brincadeiras, de que modo a criança utiliza saberes e formas de expressão? De forma ativa e integrada. A criança é agente: gosta de tomar a iniciativa, de escolher a
modalidade de expressão lúdica, de ter amigos para brincar.

E é ativa, porque faz várias coisas ao mesmo tempo. Um grupo de crianças pode brincar de dançar e cantar e chamar uma platéia (outras crianças) para assistir ― só aqui se integram três formas de manifestação lúdica.

Outro grupo pode contar histórias, escrever poesia e construir um livro. Outras ainda podem produzir desenhos, fazer colagens com diferentes materiais, fotografar e expor para os amigos. Para adquirir tais experiências, é preciso que se ofereçam oportunidades para a vivência dessas manifestações da cultura.

A unidade do ser humano pode ser exemplificada nas brincadeiras. A ação da criança no faz de conta inclui várias dimensões: ela expressa o prazer de pegar uma panela de barro ou de alumínio, conforme a tradição familiar ou da comunidade, e organizar o espaço da cozinha utilizando seus conhecimentos prévios.

Conversa com a boneca ou com os parceiros de brincadeiras com gestos ou palavras, movimenta-se na área da cozinha para dar de comer à boneca preferida e decide se vai dar a mamadeira ou a papinha para o “bebê”.

Nessa brincadeira, integram-se os gestos, os movimentos, a linguagem falada, a forma de organização estética da casa, a autonomia para decidir o que fazer e a forma de brincar que aprendeu em casa ou na instituição infantil.

X – Interação, cuidado, preservação, conhecimento da biodiversidade e sustentabilidade da vida na Terra e o não desperdício dos recursos naturais

A criança pode brincar com brinquedo industrializado, artesanal, construído por adultos e crianças, além de outros feitos de materiais de sucata e da natureza. O brinquedo deve ser utilizado, mas com responsabilidade. A criança deve aprender a usar, limpar, guardar e a reutilizar materiais.

Pode-se construir mobiliário para organizar o ambiente de brincadeira junto com as crianças, com caixas de leite de papelão, enchidas com jornal picado e amassado e presas com fita crepe, recobertas de jornal picado e cola ou tecido.

São muitos os brinquedos que, feitos com materiais de sucata, divertem as crianças.

Respeitar o meio ambiente significa não jogar papéis e brinquedos pelo chão e aprender a preservar os recursos naturais: usar os materiais sem desperdiçar, reutilizar materiais, como caixas, copinhos de iogurte e garrafas de plástico para construir brinquedos.

Ao brincar com coisas que conhece, que aprendeu com a família e amigos do seu grupo étnico/racial, a criança aprende a construir sua identidade e compreende que outras crianças brincam de forma diferente.

A criança explora o mundo, vendo casas, prédios, morros, florestas, árvores com flores e frutos, pássaros, animais, nuvens, céu, plantações, rios e riachos, jardins, ruas, bueiros, lixos, fumaça das fábricas, mangues, supermercado e carros.

E, dessa forma, brincando sozinha ou com seus amigos, vai compreendendo o mundo em que vive, cuidando em preservar a natureza, sem desperdício dos recursos naturais.

XI – Interação e conhecimento das manifestações e tradições culturais brasileiras

A riqueza cultural do Brasil propicia a diversidade de manifestações de tradições do folclore: festas do boi bumbá, maracatu, congada, festas juninas, reisado, carnaval, entre outras, cada qual com seus objetos, instrumentos musicais, adereços e suas fantasias.

As crianças podem construir um boi bumbá para brincar: é uma forma divertida de entrar nas tradições culturais.

Uma caixa de papelão, ornamentada, com um buraco para que a criança entre dentro dela e a carregue em seu corpo, dá vida ao “boi”, construído com sucata, Contar histórias, aprender as músicas e danças que acompanham as tradições ajudam a criança a penetrar no significado dessas culturas.

Cada família pode trazer para a instituição infantil os objetos valorizados pela sua comunidade, criando um pequeno museu, fortalecendo as tradições culturais brasileiras e ampliando as oportunidades para comentários de crianças e familiares.

XII – Uso de gravadores, projetores, computadores, máquinas fotográficas e outros recursos tecnológicos e midiáticos

A tecnologia está em toda parte. Mesmo de forma incipiente, em regiões de sertão ou de quilombo, a circulação entre o campo e a cidade traz a televisão, o celular, a  máquina fotográfica.

A criança pode brincar de entrevistar pessoas, com uso de gravador, fotografar o entorno ou seus amigos para depois projetar e fazer comentários. Com o apoio da professora, pode usar o computador para pesquisar temas de interesse na internet, gravar e imprimir desenhos.

A professora pode gravar cenas das crianças brincando para que elas possam rever o que fizeram, criando oportunidade para novas expressões durante a observação das cenas gravadas, o que gera prazer e contribui para o desenvolvimento da memória.

Ver junto com as crianças os programas que apreciam, para comentar e avaliar sua qualidade, colabora para uma visão crítica dos meios de comunicação.

Parágrafo único – Formas de integração das características, identidade institucional e particularidades pedagógicas de cada creche e pré-escola na proposta curricular

Toda educação tem valores. Para que a educação tenha raízes na cultura, é preciso que ela inclua os valores da comunidade na qual está inserida.

Cada comunidade deve ter o direito de escolher para suas creches e pré-escolas propostas pedagógicas que reflitam os valores de seu povo, que espelhem as escolhas do grupo. Como integrar os eixos norteadores das práticas curriculares da educação infantil (interações e a brincadeira) com as experiências da comunidade?

Na comunidade indígena, a onça, o macaco, as aves e os peixes estão presentes nos contos e brincadeiras coletivas e mostram os valores da cultura e sua ligação com a natureza. Brincar no rio, subir em árvores, construir brinquedos com sementes, frutos e galhos são práticas que preservam valores e tradições, que remontam a tempos longínquos.

As práticas cotidianas garantem a memória do povo e a continuidade de sua cultura, por isso a língua materna, a escrita, as músicas, os contos, os jogos e as brincadeiras indígenas devem fazer parte do repertório de suas creches e pré-escolas.

Se a mãe indígena carrega o bebê na tipóia presa ao corpo durante os afazeres diários, é fundamental manter essa prática quando possível. A professora deve garantir a continuidade do lar na creche, introduzir brincadeiras interativas com o bebê, valendo-se de chocalhos de cascas e sementes de frutas e, gradativamente, jogos coletivos, rituais e festas.

Ao aprender as brincadeiras de seus colegas de ascendência americana, indígena, asiática, européia ou africana, a criança aprende a respeitar os povos.

Ela pode brincar à moda japonesa com o “janquempô” (um meio de escolher o pegador usando a mão como pedra, tesoura ou papel), jogar bola com a “pelota” do seu amigo boliviano, ou levantar a “pandorga” do seu amigo do Sul.

Bonecas negras, brancas, com traços físicos diferentes, contribuem para que a criança compreenda a identidade de cada povo e aprenda a respeitar as especificidades étnico/raciais, evitando preconceitos e discriminações.

As crianças que vivem na zona rural têm experiências diferentes das que moram na cidade. Vivem em contato direto com a natureza, em florestas ou matas, junto a rios ou campos. Os pais caçam, pescam, plantam e colhem cereais e frutos, fazem artesanato.

As crianças brincam nas árvores, fazendo cabanas, gangorras e balanços com cipós, nadam nos rios e riachos, mas também brincam com bonecas e assistem à televisão.

Para aproveitar essa vivência, é preciso colocar na instituição infantil brinquedos com troncos de árvores, carrinhos de madeira, cabanas com troncos e galhos, madeira para fazer estilingue ou pião, flores e frutos para fazer “comida”, além de outros, industrializados.

Uma pedrinha tem inúmeras utilidades: vira uma peça de jogo ou serve para marcar os pontos. A brincadeira da pescaria estimula a emergência do letramento na matemática, quando a criança “conta” quantos peixes pescou.

No interior da creche ou da pré-escola, utensílios de cozinha, panelas de barro para brincar de “fazer comida” e outros utensílios de cozinha, uma rede para a boneca dormir reproduzem a vivência das crianças e estimulam o faz de conta.

Cestos com estilos regionais, enxadas, peneiras, varas de pescar servem para brincar e explorar a temática do trabalho nas brincadeiras. Com a argila, abundante em certas regiões, pode-se fazer artesanato, brinquedos em miniatura com as formas típicas do lugar. Para guardar a memória de um povo, os valores e práticas de cada cultura devem ser preservados.

Então, como integrá-los com a tecnologia? Nos centros urbanos, a integração é mais fácil, porque a tecnologia está presente em tudo, mas na zona rural isso não ocorre.

Cabe à creche e à pré-escola selecionar o que é importante, de modo a criar um espaço onde coexistam a tradição e a modernidade. Na zona urbana, há diversidade de situações.

Há projetos curriculares que se diferenciam quando a creche ou a pré-escola se aliam a outro grupo formador, como universidade, centro de formação ou a outros serviços, como posto de saúde, entidade social ou cultural do bairro ou biblioteca.

O apoio financeiro modifica espaços físicos, amplia o acervo de brinquedos e materiais, mas são as ações de formação profissional e um brincar interativo que melhoram a qualidade da educação infantil. Uma prática importante é avaliar a qualidade do trabalho pedagógico pelo envolvimento do adulto e da criança no brincar.

Art. 10. I – Acompanhamento e avaliação do trabalho pedagógico sem objetivo de seleção, promoção ou classificação, por meio da observação crítica e criativa das atividades

Se o brincar é um dos eixos importantes do trabalho pedagógico, é preciso observar e acompanhar cada criança para verificar quais foram são seus brinquedos preferidos.

Observe com quem brincou, como brincou, o que fez de novo em cada semana, se interagiu com a diversidade dos objetos e pessoas de seu agrupamento e de outros, se brincou de faz de conta com guias simples ou complexos, com quem e o que fez.

A ausência de guias mais complexos pode ter como causa a falta de brinquedos adequados para ampliar o repertório das crianças, a falta da participação da professora no brincar ou a falta de estruturação do ambiente com brinquedos e mobiliário adequados.

A repetida manipulação de um determinado tipo de brinquedo por um bebê faz parte de sua forma de explorar, mas, para uma criança de 2 a 3 anos, pode ser um problema. É preciso verificar a causa. Muitas vezes faltam brinquedos e a ação da professora para diversificar o brincar.

É pela observação diária dos interesses e da evolução do brincar de cada criança que se pode acompanhar a qualidade do trabalho pedagógico. Os instrumentos de observação e registro devem servir como base para o planejamento das atividades.

Uma estratégia para organizar os registros é definir diariamente que crianças devem ser observadas, a fim de que, ao longo da semana, seja possível observar todo o agrupamento.

II – Utilização de registros de adultos e crianças (relatórios, fotografias, desenhos, álbuns, etc.)

Como fazer observações? É preciso planejar como e quando colher os dados e sistematizar os registros: usar fotografias, selecionar desenhos e outras produções das
crianças, verificar quais são os preferidos pelas crianças e pela professora e as razões das preferências, elaborar relatórios de atividades.

O conjunto de registros compõe o portfólio, a documentação que vai mostrar o processo da criança. Esse documento, exposto nas paredes da sala, serve de consulta para a criança que gosta de ver suas produções e fazer comentários.

Os registros feitos por adultos ou pelas crianças indicam o que elas gostam de fazer. Os registros do brincar livre das crianças, que são marcas de um tempo e um lugar, ou seja, são marcas históricas deixadas pelas crianças, que podem ser aproveitados para o planejamento de atividades dirigidas, com a participação das crianças e suas famílias.

III – Continuidade dos processos de aprendizagens por meio de estratégias de transição (casa/instituição de Educação Infantil, interior da instituição e creche/pré-escola )

Transições ou mudanças são muito difíceis para toda criança. Há transições de uma atividade a outra, de um ano a outro, dentro de uma creche ou pré-escola e de instituições.

Para passar de uma atividade a outra, é preciso flexibilidade de horário, de modo a permitir que a criança que ainda está brincando, que tem um ritmo mais lento, termine de brincar com tranqüilidade, evitando choro e desconforto.

Mudar da casa para a creche, da creche para a pré-escola e da pré-escola para a primeira série do ensino fundamental são transições radicais, temidas pelas crianças.

Como fazer essas transições de maneira suave, tranquila, sem criar traumas?

Quando se conhece o lugar, não se tem medo. Assim, a primeira providência é fazer visitas e passeios ao novo local, conhecer o espaço, as professoras, o que as crianças fazem nesse novo local.

Dentro da mesma instituição, criar brincadeiras de integração, em que as crianças brincam com seus colegas de agrupamentos mais adiantados. Para preparar a transição para outra instituição, brincar de entrevistar futuros amiguinhos, saber de seus brinquedos, fotografar, desenhar e falar sobre o novo lugar.

Criar momentos em que as crianças ensinam as brincadeiras que conhecem para os novos amiguinhos de outra instituição. Essas são alternativas de transição que evitam traumas.

IV – Documentação sobre a aprendizagem e desenvolvimento da criança e o trabalho com famílias

Como registro e documentação dos brinquedos e brincadeiras na educação infantil, o portfólio pode circular na casa das crianças, para que as famílias colaborem informando as brincadeiras preferidas de seus filhos e saibam como eles aprendem e se desenvolvem ampliando a cultura do brincar.

É um material que ajuda a integrar a família à creche e à pré-escola quando os pais dão sequência, em casa, às atividades do centro infantil, inserindo comentários, fotografias ou objetos que agregam novos sentidos aos registros.

A exposição dos documentos nas paredes da instituição é um importante recurso de avaliação e divulgação do trabalho.

V – A não retenção das crianças na Educação Infantil

A Educação Infantil é uma importante fase de construção dos pilares da educação e desenvolvimento da criança, na qual se deve priorizar a observação e o registro de suas
atividades, a integração e ampliação de suas experiências lúdicas e interativas, e não a retenção.

Art. 11.
Transição para o Ensino, continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, respeito às especificidades etárias, sem antecipação de conteúdos

As crianças de 6 anos foram transferidas para o Ensino Fundamental, mas continuam sendo crianças.

A melhor forma de garantir a continuidade de seu processo de aprendizagem e desenvolvimento é incluir, no projeto pedagógico do Ensino Fundamental, brincadeiras que ampliem os interesses das crianças pelas diferentes modalidades de letramento e estender cada vez mais a ação orientadora da professora.

É importante procurar sempre observar, acompanhar e participar do brincar da criança para criar vínculos, fazer mediações:

  1. Observar: olhar sua criança para ver o que ela já sabe fazer e quais são suas atividades favoritas;
  2. Acompanhar: juntar-se ao brincar da criança; você pode aumentar a complexidade do brincar, mas deixar a criança controlar e determinar a direção do brincar;
  3. Ser criativo: redescobrir a criança dentro de si e experimentar novas formas de brincar com o brinquedo; usar o brinquedo como suporte para descobrir muitas maneiras de brincar com as crianças.

Idades e sugestões de brinquedos e brincadeiras na educação infantil

Bebês (0 a 1 ano e meio)

Chocalhos, móbiles sonoros, sinos, brinquedos para morder, bolas de 40 cm e menores, blocos macios, livros e imagens coloridos, brinquedos de empilhar, encaixar, espelhos.

Objetos com diferentes texturas (mole, rugoso, liso, duro) e coloridos, que fazem som (brinquedos musicais ou que emitem som), de movimento (carros e objetos para empurrar), para encher e esvaziar. Brinquedos de parque.

Brinquedos para bater. Cesto com objetos de materiais naturais, metal e de uso cotidiano. Colcha, rede e colchonete. Bichinhos de pelúcia. Estruturas com blocos de espuma para subir, descer, entrar em túneis.

Crianças pequenas (1 ano e meio a 3 anos e 11 meses)

Túneis, caixas e espaços para entrar e esconder-se, brinquedos para empurrar, puxar, bolas, quebra-cabeças simples, brinquedos de bater, livros de história, fantoches e teatro, blocos, encaixes, jogos de memória e de percurso, animais de pelúcia, bonecos/as, massinha e tinturas de dedo.

Bonecas/os, brinquedos, mobiliário e acessórios para o faz de conta. Sucata doméstica e industrial e materiais da natureza. Sacolas e latas com objetos diversos de uso cotidiano para exploração. TV, computador, aparelho de som, CD.

Triciclos e carrinhos para empurrar e dirigir. Tanques de areia, brinquedos de areia e água, estruturas para trepar, subir, descer, balançar, esconder . Bola, corda, bambolê, papagaio, perna de pau, amarelinha. Materiais de artes e construções. Tecidos diversos. Bandinha rítmica.

Como dissemos anteriormente, à partir dos 3 anos a nova Lousa Mágica magnética é uma ótima opção de brinquedo educativo. Ela tem uma superfície magnética que permite fixar ímãs de figuras diversas além de poder desenhar com canetinhas coloridas. Clique aqui para conhecer.

Crianças Maiores Préescolares (4 e 5 anos e 11 meses)

Boliches, jogos de percurso, memória, quebra-cabeça, dominó, blocos lógicos, loto, jogos de profissões e com outros temas. Materiais de arte, pintura, desenho. CD com músicas, danças. Jogos de construção, brinquedos para faz de conta e acessórios para brincar, teatro e fantoches.

Materiais e brinquedos estruturados e não estruturados. Bandinha rítmica. Brinquedos de parque. Tanques de areia e materiais diversos para brincadeiras na água e areia. Sucata doméstica e industrial, materiais da natureza. Papéis, papelão, cartonados, revistas, jornais, gibis, cartazes e folhas de propaganda.

Bola, corda, bambolê, pião, papagaio, 5 marias, bilboquê, perna de pau, amarelinha, varetas gigantes. Triciclos, carrinhos, equipamentos de parque. Livros infantis, letras móveis, material dourado, globo, mapas, lupas, balança, peneiras, copinhos e colheres de medida, gravador, TV, máquina fotográfica, aparelho de som, computador, impressora.

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Na sessão Atividades aqui do site, estão disponíveis diversas atividades que irão estimular o desenvolvimento lúdico e a criatividade das crianças.

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